Upside Down

Manuel Caeiro

De 20 Ago a 17 Set 2010

"A pintura é um exemplo de trompe-l'oeil em si", afirma Manuel Caeiro, que anda pela cidade absorvendo tudo o que vê. Nesta sua segunda estada no Rio de Janeiro, mais longa do que a primeira, ele diz perceber mais a cidade, com uma intensidade maior. Isso pode ser observado em seus novos trabalhos, que possuem mais luz e nuances de cor, e onde a perspectiva trabalha de maneira diferente do que nas obras anteriores. "Tem a ver com o processo de como eu vivi a cidade, os vestígios na memória, e com a própria obra: tensão e descanso, contraluz x luz", observa. 

O nome da exposição (de cabeça para baixo, em inglês) tem a ver com o fato de que as telas podem ser viradas de ponta-cabeça, invertendo seu plano e sua perspectiva. Manuel Caeiro comenta que suas pinturas podem ser consideradas abstratas ou figurativas, e que este "meio termo" o agrada. "As obras sugerem um espaço figurativo, mas quando você entra nelas, está em um plano abstrato", observa. "São exercícios em que a simulação do quadrado acaba por se acumular em um plano junto a nós", explica.

Ele cria a pintura diretamente nas telas de linho, e usa um caderno apenas para anotar suas ideias. A tela é presa diretamente na parede e só depois de pronta é colocada no chassi. "É um processo puramente mental, em que as ideias surgem e se realizam através da intuição. Gosto de pensar aquilo que já não lembro. É aí que a intuição aparece. Intuição é o maior grau de pureza da minha alma. É ela que dá espaço para que os outros pensem sobre o trabalho. Gosto de acreditar que as pessoas vão perceber a obra a partir de sua própria intuição, que vão pensar as coisas que quiserem", diz. 

Manuel Caeiro conta que ao ver as "peças quadrigêmeas", a série Trompe l?oeil, pensou que sua solução estava na escultura Twins, que fez em alumínio e esmalte sintético, com luz fluorescente vermelha. São as próprias pinturas em três dimensões, como peças que reverberam na escultura. "Foi um processo natural de todo esse percurso, e que acontece no ateliê, tem a ver com os materiais usados, com a seqüência de pensamento sobre a obra, e acaba quase que gratuitamente". Entretanto, ele ressalta: "Não sou um escultor, mas um pintor que faz esculturas", complementando que a escultura foi um prolongamento necessário de sua pintura: "Essas esculturas têm que existir no processo da própria pintura e são pintadas exatamente da mesma maneira", observa. 

Manuel Caeiro segue um princípio construtivista que investiga as relações entre o desenho, a pintura e a arquitetura. Estruturas pintadas com um extremo realismo flutuam no fundo branco da tela onde simultaneamente aparecem os registros ou "sujidades do processo da pintura", como linhas de estudo para a composição, respingos de tinta, vestígios de solvente etc. As pinturas são inspiradas em construções que o artista vê na rua. "A minha idéia é fazer um contraponto entre realidade e abstração", explica. "Pego elementos do dia a dia e trago para a tela. Transformo algo que aparentemente não tem valor em uma realidade plástica nobre", afirma.