Sem Título (Novos Relevos)

VALDIRLEI DIAS NUNES

De 21 Nov 2013 a 31 Jan 2014

A LURIXS: Arte Contemporânea apresenta, a partir de 21 de novembro de 2013 para convidados, e do dia 22 de novembro para o público, a exposição do artista Valdirlei Dias Nunes. Serão apresentados oito relevos inéditos em esmalte acrílico sobre MDF e latão polido, produzidos especialmente para esta mostra, intitulada Sem Título (Novos Relevos). Esta é a primeira exposição do artista tanto no Rio de Janeiro, assim como na galeria, que passou a representa-lo no começo do ano.

Surgindo na cena de arte paulista no início dos anos 1990, Dias Nunes vem desenvolvendo um trabalho único e consistente ao longo das últimas duas décadas. Trabalhando principalmente com pintura e desenho, sua produção individual distancia-se de qualquer categoria precedente. O artista criou um vocabulário visual preciso e rigoroso, que busca no minimalismo seu principal meio de articulação. Primando um acabamento ímpar, suas obras de linhas sutis e descomplicadas e suas superfícies sensuais, expressam uma elegante, e, até mesmo, suntuosa solidão.

Desde suas primeiras pinturas, suas obras sempre foram executadas com grande precisão, empregando uma paleta de cores suave e econômica. Estas obras, embora inegavelmente representativa, já sugeriam a flutuação entre figuração e abstração que caracterizaria suas obras posteriores. A partir do final da década de 1990, a abstração parecia contaminar a materialidade dos objetos. Desse modo, a preciosidade de figuras anteriores foi substituída pela preciosidade simbólica do material em seus Relevos, o primeiro trabalho completamente abstrato do artista.

Em uma primeira vista, o espectador reconhece que, enquanto as dimensões de cada Relevo são similares, cada uma delas é diferente, cada um é único. As obras devem ser então examinada de perto, atentamente, pois a apreciação da relação da obra individual com o coletivo, do singular para a série maior, é obtida somente através do reconhecimento da especificidade de cada elemento. Um senso de ordem é assim apreendido, favorecendo uma individualização livre sobre a uniformidade estrutural onde cada obra, consequentemente, mantém a sua autonomia e identidade.

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Expostos agora pela primeira vez no Rio de Janeiro, os Relevos recentes de Valdirlei Dias Nunes são produzidos a partir de dois elementos ? planos pictóricos de MDF pintados de laca fosca branca e barras de latão polido, incrustadas nestes planos. À primeira vista esses trabalhos parecem desdobramentos atualizados das questões da arte abstrato-geométrica (Concretismo e o Neoconcretismo), cujo auge, no Brasil, ocorreu na década de 1950 do século passado.  

Tal entrada, no entanto, não só reduz os trabalhos do artista à auto-referência formal reivindicada pelo fundador do concretismo, Theo Van Doesburg, como também, associa-os a questões avessas aos repertórios da produção contemporânea, refratários a todo tipo de formalismo (em que o objetivo final da atividade artística se consuma na produção de formas inteiramente plástico-visuais). Por conseguinte, o caminho alternativo à interpretação estrita da silenciosa ordem formal dos Relevos de Valdirlei é o de sua ultrapassagem pela via semântica, isto é, aquela da articulação da sintaxe visual dos trabalhos, com significados verbais correlatos, situados fora de seu âmbito estrito. 

Em texto publicado no número introdutório da revista Art Concret, lançada em 1930, em Paris, Van Doesburg afirma: ?O quadro deve ser inteiramente construído com elementos puramente plásticos, isto é planos e cores. Um elemento pictórico só significa a si próprio e o quadro não tem outra significação que ele mesmo?. 

A concisa declaração do fundador da Arte Concreta é, porém, inequívoca: o sistema pintura deve ater-se somente aos seus próprios elementos, eliminando qualquer interseção que possa compartilhar com as outras artes, num processo rigoroso de depuração semântica. Entretanto, se do ponto de vista morfológico é plausível aproximarmos os Relevos da limpeza formal característica da abstração geométrico-construtiva, não podemos dizer o mesmo a respeito do essencialismo radical dos preceitos conceituais que a fundamentam. Nunes, declaradamente, nunca se considerou abstrato e jamais orientou seu trabalho a partir destes preceitos. Mas isto não significa que essa atitude do artista tenha sido tomada por fidelidade à representação icônica, antípoda histórica do abstracionismo.

A constelação de obras e de séries em que se inscrevem os Relevos remonta à caixa em madeira sobre a qual Nunes pintou a óleo, em 2002, os anéis e os nós da madeira crua. Há aqui a ratificação do material do suporte (caixa de madeira) por meio da representação pictórica da madeira de que é feita a caixa, enredada numa ambígua trama que resiste à classificação pelo discurso ? simultaneamente auto-referente (posto que a madeira real referencia o ato de pintar) e representacional (já que a representação da madeira in natura nos remete a um  material semantizado pela vida humana, da lenha ao mobiliário, de objetos a construções). 

Tanto a caixa de 2002, quanto diversos outros desenhos a lápis de cor ? em que a madeira e o latão aparecem representados com economia quase abstracionista ? delineiam a constelação formada por seus trabalhos dos últimos dez anos. Deliberadamente ambíguas e intermediárias, já que seu estatuto oscila entre a auto-referência abstrato-concreta e a representação icônica, essas obras contribuem para uma compreensão não formalista e tampouco narrativa dos Relevos de Valdirlei Dias Nunes. 

Eles diferem dos trabalhos anteriores em que o quadro é o campo da contraditória pureza híbrida de seus desenhos e pinturas. As barras de latão que rasgam o campo em que adentram para criar os Relevos (desde fora dos limites dos quadros) podem ser tomadas como vetores da hibridização de auto-referência e representação que sutilmente atravessam sua estratégia poética.

Fernando Cocchiarale