Em Casa

Curadoria Felipe Scovino

De 05 Set a 14 Out 2017

Em casa

Marcando a inauguração da Lurixs em seu novo endereço, esta exposição, mais do que acentuar o tom celebrador da ocasião, articula a ideia de casa em seus mais diversos aspectos e, de quebra, ajuda a construir a própria história da galeria. É importante ressaltar este último ponto porque todos os artistas participantes são representados pela Lurixs, mas a força maior, nesse contexto, é compreender a trajetória dessa galeria, com 15 anos de atividade, através de uma linha coerente – notadamente o índice construtivo – que atravessa tempos, suportes e poéticas.

As obras exploram a ideia de casa sob diversas óticas. Desde a sua capacidade de abrigo, as estruturas que dão forma ao seu interior e fachada, até a relação da casa com a rua. Nas obras de Amalia Giacomini, Beth Jobim, Geraldo de Barros, Hélio Oiticica, José Bechara, Luciano Figueiredo, Manuel Caeiro, Raul Mourão, Renata Tassinari e Valdirlei Dias Nunes, são percebidas portas, janelas, frestas, arcos, cômodos e toda uma sorte de componentes e lugares que estruturam uma casa. A relação dessas obras com a arquitetura é perceptível, mas chama a atenção como cada uma delas elabora essa evidência ou diálogo com a arquitetura, pois nessas obras ela aparece de maneira translúcida, vazada, aberta, móvel, deslocando-se numa dinâmica própria e elementar. Giacomini experimenta a sobreposição de planos, criando ambientes que se sucedem de forma intermitente. Caeiro, Figueiredo, Jobim, Tassinari, Oiticica e Geraldo de Barros criam uma relação muito própria entre arte e arquitetura no sentido de transmitirem ao plano um desejo de se lançar ao espaço. São trabalhos que exploram em sua máxima exaustão a bidimensionalidade sempre com o intuito de criar espacialidades efêmeras que tendem a um constante deslocamento e formação de espaços dinâmicos. Esse conjunto de obras estabelece um acordo em comum: tendem a se libertar do plano e desejam o espaço. Há ainda nesse conjunto de obras um interesse, guardadas as devidas especificidades de cada pesquisa, em pensar a autonomia da cor e como ela constrói uma espécie de poética do espaço. No caso de Oiticica, é interessante perceber o quanto os Metaesquemas se configuram, de forma premonitória, como plantas baixas dos Penetráveis. Os trabalhos de Dias Nunes são regidos por uma economia de gestos, resultando num sofisticado jogo de linhas que demarcam território e a fundação de um lugar. A foto de Vicente de Mello também caminha por esse encontro entre uma gestualidade mínima e a criação muito particular de um locus. Parece-me a instauração de um evento, isto é, o encontro do acaso com um senso estético apurado do artista ao qualificar um evento do cotidiano, usual, como produção de arte. E, no caso de Paulo Climachauska, o espaço se constrói numa matemática própria e subjetiva, apesar da ordem e do rigor estarem presentes e serem processo de desenvolvimento das obras. O artista se interessa em investigar, e de certa forma “refazer”, a arquitetura de lugares com histórias muito próprias, e essa é uma situação cara a esta mostra: explorar a diversidade com a qual arte e arquitetura operam, especialmente a característica da primeira em criar lugares inventados.

As obras de Hildebrando de Castro, MUDA, Bechara e Maurício Valladares criam uma relação muito própria com a exterioridade, em particular com a rua. MUDA traz de maneira precisa e autêntica as cores, formas e procedimentos de uma dinâmica muito própria da cidade na contemporaneidade: ela passa a ser um grande painel ou tela branca a ser preenchida. A fachada na pintura de Castro já nos alerta sobre essa passagem ou limite que a exposição também explora: a exterioridade ou o quanto a casa também é percebida ou se faz a partir daquilo que a cerca. A fachada é a representação dessa fina película que separa o privado do público. Por falar em quebras, percebam como as fotos de Bechara expõem o ato da casa expelindo o seu próprio interior. A casa atua de forma inesperada, não é mais a guardiã das coisas ou o abrigo, mas possui vontade própria, constrói o seu desejo. Esta é uma relação importante para a exposição, porque o entorno, aquilo que cerca a casa, é tão importante quanto a própria edificação. Tudo é casa. Ela própria, mas também o seu interior e a sua exterioridade, incluindo os sons, cheiros, pessoas, ambientes e atmosferas que perpassam a rua. Nesse momento, a foto de Valladares ganha uma atmosfera estridente ao documentar e explorar uma Copacabana sem glamour e decadente no final dos anos 70. Esta visão de uma cidade que expõe sem medo as suas fragilidades e ambiguamente a sua força também é presente na poética de Raul Mourão, que, ao ativar um dispositivo cinético, também explora visualmente uma cidade ruidosa e complexa.

Já a obra de Gustavo Prado, de certa maneira, e guardada sua especificidade, faz referência a esse espaço interno da casa. Sua forma orgânica, traçando um diálogo próprio com o local em que é instalada, e a variedade de perspectivas e visadas que são traçadas pelos espelhos tornam seus objetos acolhidos por essa morada.

Sejam bem-vindos a esta casa que passa a estabelecer um novo rumo para a trajetória de sucesso da Lurixs.

Felipe Scovino