Cor, Plano: Suspensão

Luciano Figueiredo

De 14 Nov 2014 a 13 Fev 2015

A LURIXS: Arte Contemporânea tem o prazer de apresentar, do dia 14 de novembro ao dia 16 de janeiro, Cor, Plano: Suspensão, a quarta exposição individual de Luciano Figueiredo na galeria. A mostra reúne pinturas inéditas do artista que desde a década de 80 parte do pensamento gráfico para criar obras que continuam a gerar desdobramentos ao construtivismo brasileiro e reinventá-lo em sua produção contemporânea. O conjunto de pinturas conta ainda com um texto crítico de Felipe Scovino, crítico de arte, curador e professor.

Em sua nova série, que leva o mesmo nome da exposição, o artista apresenta pinturas feitas com tinta acrílica sobre tela utilizando tons das cores primárias, dos rosas, verdes e cinzas, além do preto e branco. Sobre elas, ele pulveriza papel picado, tão pequeno que sua origem pode passar despercebida àqueles que não conhecem a recorrência do jornal em sua trajetória. Esse material, carregado de representações do mundo, em partes mínimas torna-se etéreo e, na tela, sobre formas retangulares e triangulares de cor fica suspenso ao mesmo tempo que cria módulos texturizados igualmente geométricos. Os campos cromáticos das pinturas são translúcidos ou opacos; os que tendem à transparência remetem a campos de luz e permitem a visualização das sobreposições de planos e linhas que criam tons e formas, e se inter-relacionam com os campos de cor sólida e os vazios da própria tela. Telas, por sua vez, também retangulares. Esse jogo entre figuras geométricas e vazios é chamado pelo artista de dinâmica planar. Interessa a ele a oposição entre luz e sombra, opacidade e transparência, e a capacidade de revelar e dissolver formas. Formas estas ritmadas, em aparente movimento, como fica o olhar do espectador ao desvelar como são constituídas. Notamos a presença da delicadeza em um trabalho de questão formal, pautado no equilíbrio e na composição.

A trajetória de Luciano Figueiredo revela o caráter experimental e a coerência de seu trabalho. Em 2004, na série Dioramas e Muxarabiês, o artista apresentou pinturas, dessa vez feitas sobre madeira, que mostram a estreita colaboração da ordem gráfica (design) e do conhecimento pictórico (pintura) em sua produção. As transparências nessas obras revelam o seu suporte, sua origem orgânica, além das camadas de tinta líquida superpostas, enquanto o jornal se faz presente pela estrutura diagramática das formas nos quadros. Em 2008, na exposição Tercetos, dois tipos de pintura foram apresentados: no primeiro deles, caixas de vidro e madeira incorporam pinturas sobre tela, enquanto no segundo, configurações não retangulares de camadas de tela fixam pinturas, assim como serigrafias de tiras de jornal que funcionam como linhas. Em ambos, o artista utilizou uma gama reduzida de cores saturadas, sem oposições cromáticas fortes, como é de seu estilo. Já na série Espaço-Laço, de 2011, foi apresentado um projeto espacial com obras realizadas a partir de dobras, torções e sobreposições de papéis e lonas que sugerem movimento, como o folhear de um jornal, e obtêm uma espécie de redução espacial orgânica. Todos esses elementos têm o mesmo estatuto no universo de equilíbrio não-forçado do trabalho de Luciano.

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Pintura e invenção

A nova série de trabalhos de Luciano Figueiredo, Cor, plano: suspensão, faz-se pelo prisma da invenção. Este poderia ser inclusive um fenômeno que caracteriza sua trajetória. Lidando com uma economia mínima de formas e cores, e aperfeiçoando-a, ele reinventa uma tradição que é cara à arte brasileira: a das linguagens construtivas. É bom deixar claro que a maneira como domina essa economia não significa que o seu repertório seja escasso, pelo contrário. Sua obra quase sempre parte do cruzamento de planos e da exploração de engendrar espaço a partir do jogo entre plano e vazio. É como se este não fosse um nada ou espaço ausente de significado, valor e forma, mas possuísse uma energia; ao mesmo tempo, é como se fosse necessário, quase vital, para o artista que este pensamento seja ilustrado simbolicamente por meio de um corte ou abertura. Nesse sentido, sua obra nos abre infinitas janelas para percebermos um espaço que sempre esteve presente, mas não era vislumbrado. Um espaço que se faz continuamente no rearranjo de formas e no contraste entre cheio e vazio, luz e sombra, transparência e opacidade, sobreposição de planos e uma gama de tonalidades. 

Para a criação desses cortes e janelas, o artista, nesta série, aplica um novo método à sua prática como pintor: o papel picado. Com uma pequena quantidade de cola e salpicado sobre as telas, este material cria uma situação ilusionista: constitui quadrados, retângulos ou outras formas geométricas que criam um diálogo, assim como uma dinâmica com a geometria constituída pela tinta acrílica. 

Figueiredo não só cria novas condições para a pintura, como também posiciona o artista (pintor) como um sujeito que busca indefinidamente a invenção ou fabricação de espaços como um motivo condutor. Desde os anos 1970, o jornal é um elemento de problematização e construção de cor e espaço em sua obra, como foi o caso de Chiaroscuro Sky (1977), no qual também acentuou o lugar da poesia em diálogo com a pintura e, portanto, o quanto a palavra pode ser um elemento da construção pictórica; ou ainda da série Relevos (década de 1980), quando o espaço da folha de jornal e sua diagramação se tornam elementos de apropriação de um pensamento do pintor. O título da obra de 1977 é perspicaz para nos lembrarmos que a oposição entre luz e sombra é um artifício amplamente utilizado na série de obras de 2014 como um método para compreendermos não só a construção modular mas também como essas formas se fazem e desfazem continuamente no plano. A série Diorama (c. 2001) antecipa muitas questões que serão desenvolvidas agora. Naquelas obras, o papel jornal era cortado em tiras e, com cola em seu verso, um acúmulo delas era formado em determinadas partes da tela, condensando um jogo geométrico com a tela e com a aplicação posterior de acrílica nos espaços vazados. Em outros momentos, este jogo de formas era criado por três velaturas compostas pelo papel em tiras, tinta acrílica e uma parte não picada ou cortada do jornal. Não podemos esquecer também o importante trabalho de Figueiredo na história do design e como, portanto, o papel e a palavra são companheiros assíduos desse artista.

Este rápido panorama demonstra o senso de coerência e experimentação que percorre seu trabalho. Ouso afirmar que, nesta nova série, percebemos o fenômeno que também o acompanha: como os sólidos que são criados pelos campos cromáticos são atravessados pela luz, ou são puramente cor-luz. São “sólidos” que se caracterizam pela porosidade e delicadeza. Em alguns momentos, parecem tão leves que dão a impressão de que se desmancham. Por outro lado, não só essa característica de um sólido preenchido ou vazado por luz ressalta as velaturas que a pintura possui, mas substancialmente uma imagem é criada: a de que essas formas não se bastam naquele espaço (tela) em que se apresentam aos nossos olhos. Há uma espécie de continuidade, de um movimento virtual delas como um desdobramento contínuo. Estas formas significativamente estão em trânsito, pois magicamente se sobrepõem umas às outras, atravessam planos, constituem espaços que são a todo momento descobertos pelo olhar multidirecional do espectador. Suas pinturas não nos induzem a olhar para o centro delas, mas a descobrir pacientemente como esses módulos de espaço são sucessivamente constituídos e destruídos. Por conta da relação entre cheio e vazio, as formas geométricas estão concomitantemente adiante e atrás, avançam e recuam, simulando diferentes posições para o espectador. Figura e fundo não conseguem diferenciar-se, são alternâncias constantes. Quando o espectador se movimenta diante dessas obras, o fundo fragmenta a linha de cores, de modo que se apresenta como uma série de pequenos pontos flutuando no espaço.

Há uma estabilidade provisória nessas obras, pois tudo é relativo e tende ao movimento. As linhas são elementos geradores de formas que, por sua vez, revelam-se como transparências, expandindo o campo visual e constituindo-se basicamente como uma vibração de luz e espaço. Refletindo sobre como Figueiredo trabalha a cor, o papel picado faz com que ela ganhe textura e volume. A cor pouco a pouco adquire uma condição espacial – isto é, a sua condição planar já não a interessa mais –, dialogando intensamente com o que é operado pelas formas e linhas. O que o trabalho nos entrega é um momento que reflete algo que está acontecendo incessantemente e nunca será concluído. É uma expectativa a respeito da indefinição sobre para onde essas formas seguem. É curioso perceber que, em vários momentos, a cor parece escapar, ir para além de uma possibilidade de apenas a determos numa perspectiva frontal. A cor esparrama-se pelas laterais demonstrando as dobras, fugas, rotações e movimentos que não param de acontecer. Aqui se resume a inquietude e invenção desse artista: a sua capacidade de operar inteligentemente luz, cor e movimento como um sistema que engendra espaços, simulando virtualidades espaciais e transformando nossas certezas em dúvidas. E isso não é pouco em uma época de escassez de experimentações na qual a ideia de arte se confunde com a de commodity.

Felipe Scovino