Chão, Parede e Gente

Raul Mourão

De 25 Set a 29 Out 2010

A exposição está aberta e parada. Passo a passo, você entra na sala e pisa na certeza de que tudo está no lugar. Seu olhar confiante não procura mais o chão ao andar pelo recinto de uma galeria. Tem apenas que encarar as obras. E lá estão elas. Em sólida espera. Paradas, firmes, impávidas, retas.

No início, como se estivesse numa casa desconhecida, existe o receio de tocar em algo que vai quebrar ou a preocupação em tirar um móvel do lugar. Mas a partir do momento em que você mexe em uma das bordas, a casa em descanso nunca mais irá parar. Pois é impossível não ceder à tentação de acionar o vai e vem preguiçoso e gracioso desses objetos. Testar o peso que é leve e dar movimento ao inanimado. O aço bruto se recobre de sensualidade e sua inesperada leveza transforma-se em uma ginga, um ir e vir acolhedor e descontraído. Assim, como você, os visitantes irão tocar em tudo, até cada escultura cessar seu movimento e voltar ao escuro inerte da sala fechada.

Raul Mourão sempre esteve apavorado. Blindado em abstrações, andava nas ruas e via grades onde viam a salvação. Cercou carros, cercou pedras, cercou árvores, perseguiu cachorros, esmagou cabeças, calou surdos, encaixotou mitos, pendurou artistas, expandiu ódios, cultivou parceiros. Eis que, através de uma fresta, quando reatamos ilusões e celebramos a vida a troco de nada, Raul encontrou leveza. Uma forma de espantar os males e expandir afetos se apresentou a ele onde menos se esperava: no geométrico vai e vem do aço. Na frieza dos ângulos retos, o artista abriu uma nova avenida para os seus olhos. Mesmo assim o pavor permanece. Estar apavorado não é uma opção, mas sim uma condição. Raul e seu ateliê localizam o mundo inteiro a partir de uma rua do bairro da Lapa. Às vezes, ele se instala na subida da escadaria, onde os gringos e as putas e os moleques e os azulejos e as famílias e os casais e os abandonados cruzam os dias frenéticos do artista. Ignorando choques de ordem e condomínios com academias de ginástica, as ruas da Lapa continuam alucinadas. Raul sabe disso. As esculturas cinéticas dessa exposição são a prova de que mesmo nessa alucinação urbana, mesmo na ferrugem que carcome as formas, mesmo apertados entre chão, parede e gente, ainda há beleza.

Hoje em dia, todos sabem se portar em uma galeria, mesmo quando a arte exige comportamentos desviantes à norma. Observar, tocar, participar. Sem mistérios, questionamentos ou transgressões de outrora, atualmente há até certo conforto em fazer parte da obra. Na exposição de Raul, porém, não basta tocarmos nas esculturas para sermos participadores. Não basta darmos movimento às peças para estarmos quites com algum tipo de conceito proposto pelo artista. Aqui, não se trata de participar para fazer parte do espetáculo. O que está posto não é a relação individual-compensatória entre espectador e obra, em que participar é satisfazer sua vontade em mexer no trabalho do outro. Raul não nos apresenta nem um bicho, nem uma capa. Nem um caminhando, nem um labirinto. Aqui, a grande obra em jogo é TODO O ESPAÇO DA SALA em permanente transformação após cada movimento.

Ampliando a visão da exposição como o conjunto dessas esculturas em movimento, o toque individual em uma das esculturas, qualquer uma delas, aciona um mecanismo físico e entra em diálogo direto com os outros movimentos ao redor da sala. Os movimentos feitos por diferentes pessoas, em diferentes momentos, reordenam o tempo inteiro a geografia da exposição. Assim, um movimento singular torna-se, automaticamente, coletivo. Nunca teremos o mesmo desenho na sala, pois nunca teremos o mesmo movimento, feito pela mesma mão, na mesma velocidade. Para cada um, sua própria exposição. Pois é o espectador, em uma evidência do seu desejo, quem escolherá a peça que deve ser balançada em primeiro lugar.

- Qual me atrai mais? Por onde começarei minha aventura com elas?

Não há regra, bula ou código de conduta frente essas obras. Há apenas esse convite sensual sem voz ou texto pedindo para acioná-las. Uma liberdade subentendida no equilíbrio entre as bases e seus pêndulos improváveis. Pois também não se trata apenas de arte cinética. A história da arte não precisa ser evocada para falarmos sobre essa vontade do toque. É porque dentro dessa sala instala-se uma relação orgânica entre o que o espectador deseja acionar e o que as peças desenham após serem acionadas. Aqui, você tem uma responsabilidade sobre a dinâmica da exposição. Cada um, com sua força ou seu temor, contribui para o movimento e a quebra da placidez dessas figuras atraentes. O equilíbrio em um único eixo, a organicidade improvável do objeto sólido, tudo é abraçado pelo lá e cá do balanço. A exposição se faz a partir desse deslumbre: fazer as peças dançarem.

Raul disse que, durante um ensaio da Intrépida Trupe, o acrobata bailava com suas grades. Raul viu a grade de ferro girar e sorriu. Viu o acrobata subir na grade de ferro e temeu. Viu o acrobata balançar a grade de ferro e pirou. Estas esculturas com balanço não nasceram de um impulso racional brutalista, nem foram gestados após dias de cálculos solitários sobre pesos e medidas. Elas nasceram de uma ginga. Por isso que sua geometria segue a sinuosidade do corpo e das ruas. Suas camadas de ângulos, a sobreposição dos bailados das hastes, a borda do peso imprevisível, tudo isso explode a razão do aço e nos envolve em uma dança hipnótica. A origem dos balanços é essa transposição de um movimento alheio. É a apropriação desse gesto, ampliada pelo olhar plástico do artista.

Existe, também, um silêncio solene ao redor do que se move. Ecoando em baixa freqüência, no oco desse silêncio, certo ar de risco. Há ao redor dos Balanços uma forma difusa de medo, um frisson que não deixa você se afastar do que lhe assusta, uma vontade de mexer com o que pode não dar certo (será que ele cairá? Será que ele me machucará?), de colocar a mão no fogo, de olhar narcotizado o que lhe fascina. Há, enfim, um amor. Pois vencida a rejeição que peças pesadas, frias e escuras de aço nos passam, começamos a enxergar formas pessoais, contornos de corpos em uma beleza quente. Somos seduzidos pelo artista a comprovar cada título das peças, observando o tempo das obras em movimento e firmando um compromisso com a contemplação do que admiramos. Cada vez que você tocar nessas obras esteja pronto para rasurar o desenho do espaço que você encontrou e para ser coautor nessa cartografia de desejos cinéticos. Nessa inesperada festa das formas, esvazie a mente no ritmo plácido do tempo enquanto as esculturas de Raul dançam para você. Ou melhor, dançam com você.

Frederico Coelho